Emprestar dinheiro é a ”nova” forma de investir

Emprestar dinheiro é a ”nova” forma de investir

Com promessa de retorno maior e juro menor, fintechs de crédito ”peer-to-peer” crescem, mas não há garantia para aplicador

Por: Stephanie Tondo – O Globo

Recorrer a amigos e familiares para pedir dinheiro emprestado é algo comum, mas as fintechs estão transformando essa prática em mercado. A ideia dos empréstimos peer-to-peer, isto é, de pessoa para pessoa, é cortar o intermediário e permitir que o tomador de crédito tenha acesso a juros mais baixos que os dos bancos, enquanto o credor teria rendimentos mais altos que em outros investimentos, como títulos de dívidas, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) ou debêntures.

A procura por esses financiamentos parte de pequenas e médias empresas que têm dificuldade de conseguir crédito nos bancos. Foi essa situação que levou o empresário Thiago Carneiro Barreto a procurar a fintech Money Money. Ele precisava de R$ 190 mil para renovar a farmácia Ecopharma, em São Paulo, que passou a administrar no lugar do pai, que havia se aposentado.

A gente precisava de dinheiro rápido, e os grandes bancos eram muito burocráticos, pediam diversas garantias e cobravam juros altíssimos.
Ele conheceu a fintech por meio de um amigo e conta que, em 20 dias, conseguiu o dinheiro pagando metade dos juros que os bancos cobraram: – O crédito foi importante porque era um momento em que a gente tinha dívida, e o dinheiro me ajudou a organizar as coisas dentro da loja. Um ano e sete meses depois, eu já faturo cinco vezes mais do que meu pai faturava em 25 anos. O empréstimo impulsionou o negócio e ajudou a me deixar mais tranquilo.


Regulamentado em 2018

O dinheiro emprestado pela fintech vem de investidores que escolhem em quais negócios vão aplicar seus recursos. Entre eles, o próprio Barreto, que decidiu ”investir” na sua dívida como pessoa física:

Não só eu, como meu pai, minha irmã, a família toda. E para mim esse investimento não tem risco algum, porque sei que eu vou pagar o empréstimo.
O propósito por trás do investimento foi também o que levou o consultor Gabriel Ferraz a começar a aplicar seus recursos em uma fintech de crédito peer-to-peer.   O retorno financeiro é acima de outros tipos de investimentos. Mas não é só a questão da rentabilidade, que é importante, mas do propósito e de saber que estou ajudando um pequeno empresário a melhorar seu negócio e fazer a economia girar.

A taxa de retorno é, em média, entre 15% e 40% ao ano. Bem acima da taxa básica de juros, referência para investimentos de renda fixa como o Tesouro Selic, que está em 6,25% ao ano.

Mas essa rentabilidade tem um custo: o risco. De acordo com a regulamentação do Banco Central, os investimentos nessa modalidade não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira para aplicações como poupança, LCIs, LCAs, CDBs, entre outros. No Tesouro Direto, a garantia é do Tesouro Nacional, independentemente do valor aplicado.

Isso significa que, caso o tomador de crédito não pague o empréstimo, o investidor arca com o prejuízo. E por isso que o Banco Central estabeleceu limite de R$ 15 mil por projeto para esses investimentos.

A Sociedade de Empréstimo entre Pessoas foi regulamentada pelo BC em 2018. Para Pedro Eroles, sócio de Bancos e Serviços Financeiros do escritório Mattos Filho, a modalidade tem a vantagem de não estar sujeita à lei da usura, ou seja, não há limite de juros: O risco fica mitigado por esse valor. E diferente de uma operação de crédito de um banco, em que, se houver inadimplência, o detentor da CDB não deixa de receber o seu dinheiro. O risco é do banco. Nesse tipo de operação, o risco é do credor, mas com possibilidade de ganho maior.

Apesar disso, as fintechs garantem que a taxa de inadimplência é baixa e compensa o retorno. A CapRate, voltada para o ramo imobiliário, informou que ainda não registrou calotes, apenas atrasos. Já a MoneyMoney e a Nexoos, que oferecem crédito para empresas, afirmam que a inadimplência está em 2%.

Bens como garantia

Para minimizar o risco, Marcos Travassos, fundador da Money Money, conta que a fintech reduziu o limite para R$ 5 mil por projeto. O investidor pode aplicar em vários projetos ao mesmo tempo. Assim, se ele tiver um retorno de 25%, que é a média, mas perder 5%, não vai ficar chateado, porque ainda assim o retorno terá sido muito bom.

Daniel Gomes, fundador da Nexoos, diz que a fintech cresceu mais de 80% durante a pandemia, com o aumento da procura de pequenas e médias empresas por crédito: Teve um shopping que estava com as lojas fechadas e queria dar capital para os lojistas. Então oferecemos esse serviço. Financiamos mais de R$ 200 milhões na pandemia.

A start-up trabalha no lançamento de novos produtos, como parceria com a AME para oferecer cashback.

A CapRate atua com incorporadoras imobiliárias. Para mitigar os riscos, oferece bens como garantia. Mas ao contrário dos bancos, que pedem 200% a 300% de garantia, nós pedimos 150% – explica Paulo Deitos, cofundador da CapRate.

Os juros nos sites das fintechs giram entre 1,15% e mais de 2% ao mês, mas elas afirmam que as taxas são avaliadas caso a caso.

Confira a matéria publicada originalmente no G1!

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